Palavra(das)

Maio 16, 2012 under Miguel Ribeiro

A palavra é uma arma nas mãos dos (menos) dotados, é como uma pedra que depois de lançada já não volta à origem. Parece uma coisa inocente, de somenos importância mas tem consequências devastadoras se for empregue para os piores fins. Pessoas morreram, povos desapareceram, nações inteiras foram riscadas do mapa devido a palavras. Tem um poder maior que as balas de titânio, uma força mais avassaladora que ogivas nucleares, muda destinos e move montanhas. A palavra não tem fronteiras nem sofre desvalorização ainda que haja que palavreie a esmo, mas até mesmo nesses casos não se pode assacar culpas ao que se diz mas a quem o diz ou à maneira como se a ouve. É assim a palavra, vale tostões ou milhões conforme o lado para que estamos voltados.

Para mim a palavra é uma divisa que se troca em câmbio igual e por isso espero sempre pelo menos o mesmo valor de palavras que dou ao meu interlocutor. Não espero  dele o mesmo nível mas o mesmo empenho nessa troca, uma conversa desinteressada ou seca é meio caminho para eu pensar em apagar o contacto no telemóvel ou aplicar o infalível “bom, então logo falamos”, mandar a segunda pessoa para o raio que o parta e não lhe dirigir mais a palavra porque é melhor não dizer nada do que falar por frete.

Constato porém que o preço da palavra tem vindo a cair a pique, dizem-se coisas sérias com a leveza com que se chama palavrões à mãe de um árbitro. Promete-se isto e aquilo, afiança-se tudo e mais alguma coisa para depois se fazer tábua rasa das palavras, esvaziar-lhes o conteúdo. A palavra banaliza-se, diz-se mas não se escreve, deixa de ter importância, é um joguete.

Apoquenta-me esta perda de significado, que não se sinta o que se diz e que as palavras saiam da boca para fora como um vómito incontido, sem critério nem consideração. Parece que as palavras têm de abandonar o seu lugar porque estão a ocupar espaço de outras coisas aparentemente mais interessantes, não necessariamente mais importantes. A palavra tornou-se vulgar, dispensável, o vento leva-as. É uma coisa que me deixa triste, mais triste do que ver portugueses falarem e escreverem mal, darem erros do tamanho da Via do Infante, torturarem as palavras, alguns que até são licenciados (e nós conhecemos como é a cagança bem portuguesa de se ufanar ter e mostrar um dr. antes do primeiro nome) pregam cada bacorada gramatical, ortográfica ou de pontuação quando se sentam ao teclado que me faz perguntar em que idioma fizeram os exames do Secundário, do Superior e quem foi o cego que os corrigiu. Eu sei que nem todos nós temos o dom da palavra mas escrever minimamente bem o idioma natal é uma obrigação de todos os portugueses, ver as palavradas que pessoas com uma certa responsabilidade cívica escrevem nas suas redes sociais – por exemplo – é uma dor de alma. Palavra de honra.

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Palavras despejadas.

Maio 16, 2012 under Otília Justo

Já nem me lembro da primeira vez que me pediram para dar a minha palavra mas já a dei muitas vezes.
Algumas tenho de admitir que dei em vão, para que não me enchessem a cabeça de outras palavras – as ocas, cruéis, amargas ou doces. Simplesmente palavras.
A primeira vez que dei a minha palavra de honra, e que foi mesmo sentida, foi nos escoteiros. Ai… como sinto saudades desses tempos.
Dávamos a palavra, a alma e viviamos com sinceridade e honestidade… Sinceridade e honestidade onde andam por estes dias? Duas palavras que hoje muitas poucas pessoas conhecem e as que conhecem acabam por eliminá-las do seu dicionário.
Quantas vezes fomos honestos com os nossos sentimentos, pensamentos, palavras e acções? Quantos foram sinceros quando jogaram ordeiramente palavras para fora da boca tal como um comboio que avança direito nos seus carris para não descarrilar?
E quantas vezes essas mesmas palavras acabaram por ser descabidas por falta de honestidade e sinceridade? É que já dizia o outro “palavras leva-as o vento”.
Eu então passo o dia inteiro a falar com desconhecidos, a minha profissão assim o dita, e nem imaginam o bom que é quando chego a casa e guardo as palavras só para mim, todas bem arrumadinhas nas gavetas da minha cabeça, e substituo-as por imagens, imagens que ficaram retidas pela íris. E sim, um olhar fala diz mais que uma única palavra. Um gesto dita mais que uma palavra, um simples sorriso. Palavras, palavras são infinitas, duram e duram, e até acabam por chatear tanto de as ouvir como de as pronunciar.
Vejam bem aqueles senhores todos engravatados, que se deslocam à reunião dos “irmãos que se juntaram para arruínar o país”. Esses então são os reis das palavras profanas e rídiculas. Acho que deveríam de ganhar o prémio do que “em 10 palavras 6 são uma verdadeira anedota”!
Depois temos aqueles outros senhores que falam da fé e do pecado, esses então estão constantemente em fase de negação.
Depois temos as crianças. Essas sim, é que deveriam de ensinar a todos o verdadeiro significado das palavras.
E um dicionário? Já alguma vez sentiram aquela doce tentação de simplesmente folheá-lo e ler realmento o significado das palavras? Eu já, mas não encontrei. Algumas vou encontrando, outras vão ficando desfocadas á espera que as centre e foque. Tudo a seu tempo. Palavras, algumas doces, outras amargas, simplesmente palavras que para mim muito sinceramente, nada me dizem. Palavras. Meras palavras.

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Palavra:

Maio 5, 2012 under Ricardo Gomes

Palavra: “confusão”. Significa desordenado, misturado e é a imagem que melhor definirá este texto no seu final.

Não é afinal a imagem que vale por mil palavras?
Dizem que é assim mas o certo é que tentamos sempre fazê-lo.
Descrever e ser descritos. Usamos a palavra para tal. Através de gestos, escrita, falada, lida ou cantada, quase nunca indiferente, pois está destinada a abrir mentes e a emocionar o Homem e mesmo quando a cortam e censuram o mundo não pára. É fugaz o momento em que ela se fecha dentro da mente dos Homens, num limbo, meramente a aguardar a oportunidade, o veiculo, que a traga de novo à boca de alguém e ao ouvido de outrem. Dita ou omitida, uma palavra significa a diferença entre lágrimas nos olhos ou um sorriso na boca.

Há varias palavras para dizer o mesmo. Significado, sinónimo, antónimo, luta ou resignação, poesia, prosa, estudo e reflexão. Gramaticalmente tantas formas que podem ser dadas ao uso da palavra escrita ou verbal. Podemos ser objectivos ou subjectivos. Usar um substantivo, a hipérbole. Falar em gerúndio, futuro, presente ou passado.
Verbalizar ou calar. Usar ou passar a palavra. Fazer juras de Amor e de ódio. Com mais ou menos aproposito sair um palavrão ou uma interjeição. É a palavra que aproxima e a sua ausência que ostraciza. Usá-la para se dar ou faltar ao respeito. É o “olá” e o “adeus”. Dizer mais, menos ou nada.

A palavra pertence tanto a uma língua como a um dialecto. Pertence a um simples piscar de olho ou a um gesto.
A palavra é riqueza, em moeda ou em sentimento. Para uns será a Palavra “Deus” para outros será “milhão” mas sempre se traduzirá em “Amor” a algo, a alguém. Obedecemos à palavra. Ela que é Lei escrita ou das ruas, moral ou habitual. É a palavra que chateia e que nos faz falta. Enquanto a sua ausência normalmente significa ou alivio ou saudade mas a sua existência, às vezes, significa tudo.

Usamos os Olhos, a expressão, o corpo. Usamos tudo de modo a facilitar o ilusionismo da palavra. Desde a pessoa que só quer alguém para a sua cama, ao politico que leva ao rubro toda uma audiência. Brincam com as palavras, não dizendo mas dando a entender, sem nunca se comprometer, evitando desculpas ou posteriores justificações. E o actor, sempre mentiroso, que faz suas as palavras de outros. Escutamos, a voz da razão e da ilusão, conselhos dados, opiniões oferecidas numa sempre eterna ambivalência, em que basta uma única palavra a mais para se deixar de ser inteligente e se passar a ser intrometido, ou mal entendido. Pois, o que para um será a simples promessa de Amor do amante na altura certa, para outro será a ofensa maior na altura pior. É a falta de capacidade para se explicar ou a impossibilidade de se compreender? Afinal, é grande ou inexistente a diferença entre “Amar” e “Foder”?

Chego à conclusão de que se o silencio é de ouro, a palavra é diamante.
Termino, não o “The End” cinematográfico, mas com o que mais simples e sincero se pode desejar a nós e a todo o mundo:

Saúde & Sorte.

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De Como A Minha Avó Lidava Com Pragas

Abril 19, 2012 under Miguel Ribeiro

Eu acho que as pragas são uma coisa subjetiva e que deriva do conceito de cada pessoa, o que é uma praga para mim pode ser aceitável ou até um prazer para outros. Por exempo, os fumadores. Uma praga!, dispara o anti-tabaco cioso da pureza do seu ar. Esses gajos não respeitam ninguém, é só baforadas de veneno, empestam tudo. É capaz de ter razão, o nosso ativista. Eu não fumo em casa, só quando joga o Sporting mas aí vou para a janela, não fumo socialmente a não ser que tenha um grão na asa mas a mim o fumo dos outros não incomoda, não é uma praga. O que me incomoda são os convertedores, aqueles que se dedicam a converter os outros, a impor valores. Para mim, isso é que é uma praga.

Podem ser agentes de telemarketing, políticos ou Testemunhas de Jeová, por exemplo, que abordam as pessoas na rua ou batem à porta de casa para oferecerem a palavra, informação dispensável porque errónea, é a interpretação deles duma história nunca devidamente explicada, um conjunto de convenções que se aceitaram como boas e indiscutíveis, uma cartilha de boas intenções que ninguém pratica. De onde vem a minha aversão a Jeovás? A minha avó fazia rissóis e pastéis de bacalhau com os quais abastecia a cidade de Faro, escolas e supermercados, restaurantes e cantinas, isto nos anos 70/80. Levantava-se às 4:30 da manhã para preparar as claras porque não tinha frigoríficos grandes o suficiente para as armazenar e porque mais à tarde o calor azedava-as. Uma ocasião estava ela a ralar batata num passe-vite enorme, suava as estopinhas, mais duas colaboradoras nos bicos do fogão a fritar os pastéis, entram duas velhinhas pela porta de trás, livro na mão, Boa tarde, queríamos falar um bocadinho sobre a palavra de Deus… A minha avó olhou-as do alto do seu 1,60 e convidou, Entrem, entrem que enquanto ajudam e descascam uma batatinha podemos falar do que quiserem. Como lhes cheirou a trabalho logo as velhotas recuaram, Ai, talvez noutra altura, por muito que a minha avó insistisse que Não, não. É boa hora. Entrem, puxem dum banquinho e sentem-se a descascar batatas que assim eu ouço todas as palavras das senhoras. Ala que se faz tarde, as criaturas deram à sola, a minha avó volta-se para mim, puxa o papo do olho para baixo com o dedo e joga-se de novo ao ralador que fazia dois da largura dela.

Praga é também a linda capital da República Checa, uma cidade decalcada dum conto de fadas que tem de ser visitada custe o que custar. Vistas excelentes, monumentos formidáveis, história riquíssima, gastronomia interessante, Praga é o local ideal para uma fuga de fim de semana prolongado ou para umas férias culturais, uma mudança de ares que só faz bem a quem dela goza, porque férias não têm necessariamente de ser na praia com mojitos.

E chama-se Praga o distrito da margem leste de Varsóvia onde a capital é mais autêntica. Praga foi poupado às bombas nazis, manteve a sua traça original e manifesta diversas características da Varsóvia antiga mas não tem tanto interesse turístico como a sua parente checa devido aos elevados índices de criminalidade.

Bom… Acho que estes últimos parágrafos revelam bem as saudades que já tenho da minha toca polaca.

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Pessoinhas

Abril 13, 2012 under Otília Justo

Formigas rabigas, baratas cucarachas, fungos fungoses, gafanhotos saltitões fritos, “enxame” de políticos aldrabões e papões do Zé Povinho…. PRAGAS! Todos uma grande praga.

Já pensei enviar para os laboratórios da Bayer -wwoopss será que posso fazer publicidade no 100Comentários?? Bem, passemos à frente. Como estava a dizer, já pensei sugerir a um desses laboratórios super-mega cientificos que encontrem a fórmula correcta para o extermínio da maior praga do mundo: As pessoínhas.

Essa que nos enche de frustrações e mesquinhês normalmente através de gritarias que nos furam os tímpanos. Humanos que ao ofenderem a nossa inteligência, nos colocam a duvida se realmente os burros não seremos nós. Individuos que reclamam porque reclamam, que sentem a necessidade de descarregar nos outros a sua própria frustração que lhes suga a alma. Pessoinhas que corroem o nosso cérebro pela exaustão.

Apetece-me reclamar para o interior desse ser que contamina a sociedade. Que tal analisarem-se e pensar se no fundo, bem lá no fundo, o problema são serão vocês?

Bela praga esta das pessoínhas. Movem-se como formigas, em fila pirilau (desculpem lá mas foi assim que aprendi nos escOteiros – com O e não U, se faz favor) espumando pela boca, tal e qual, como se fossem uma mistura de formiga com cão raivoso. O cérebro parado apenas mexendo a boca num vómito verbal de gritos, queixas e lamurias jorrando numa torrente como se fosse uma cascata até acabarem por se esquecer do que realmente queriam no inicio.

Simplesmente necessitam de espalhar a praga, o virus. Precisam de contaminar e deixar tudo em seu redor como um deserto, uma terra esteril onde nada cresce excepto a má disposição e a dor de cabeça de os ouvir. Utilizando os bracinhos para dar mais enfase à sua questão, as pessoinhas só ficam satisfeitas quando acham que já gritaram tudo o que tinham para gritar. Calam-se, respiram fundo, baixam o tom de voz e terminam. Achando-se ainda mais importantes, têm o cuidado de confirmar se afectaram tudo e todos em seu redor, rematando com a célebre frase “Peço desculpa por me ter exaltado, mas alguém tem de ouvir”. Alguém tem de ouvir?

Repito: São Pessoínhas. Uma verdadeira praga que contamina tudo em seu redor.

Cada vez é maior e mais forte a sua presença. Todos somos potenciais vitimas e, depois de contaminados, propagadores também. Sejam humildes pois é bem mais forte que nós!
Precisamos urgentemente de um anti-pessoínhas e até existir esse spray mantenham os olhos bem abertos e os ouvidos bem fechados. Sejam cautelosos, as pessoínhas andam aí!

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