A palavra é uma arma nas mãos dos (menos) dotados, é como uma pedra que depois de lançada já não volta à origem. Parece uma coisa inocente, de somenos importância mas tem consequências devastadoras se for empregue para os piores fins. Pessoas morreram, povos desapareceram, nações inteiras foram riscadas do mapa devido a palavras. Tem um poder maior que as balas de titânio, uma força mais avassaladora que ogivas nucleares, muda destinos e move montanhas. A palavra não tem fronteiras nem sofre desvalorização ainda que haja que palavreie a esmo, mas até mesmo nesses casos não se pode assacar culpas ao que se diz mas a quem o diz ou à maneira como se a ouve. É assim a palavra, vale tostões ou milhões conforme o lado para que estamos voltados.
Para mim a palavra é uma divisa que se troca em câmbio igual e por isso espero sempre pelo menos o mesmo valor de palavras que dou ao meu interlocutor. Não espero dele o mesmo nível mas o mesmo empenho nessa troca, uma conversa desinteressada ou seca é meio caminho para eu pensar em apagar o contacto no telemóvel ou aplicar o infalível “bom, então logo falamos”, mandar a segunda pessoa para o raio que o parta e não lhe dirigir mais a palavra porque é melhor não dizer nada do que falar por frete.
Constato porém que o preço da palavra tem vindo a cair a pique, dizem-se coisas sérias com a leveza com que se chama palavrões à mãe de um árbitro. Promete-se isto e aquilo, afiança-se tudo e mais alguma coisa para depois se fazer tábua rasa das palavras, esvaziar-lhes o conteúdo. A palavra banaliza-se, diz-se mas não se escreve, deixa de ter importância, é um joguete.
Apoquenta-me esta perda de significado, que não se sinta o que se diz e que as palavras saiam da boca para fora como um vómito incontido, sem critério nem consideração. Parece que as palavras têm de abandonar o seu lugar porque estão a ocupar espaço de outras coisas aparentemente mais interessantes, não necessariamente mais importantes. A palavra tornou-se vulgar, dispensável, o vento leva-as. É uma coisa que me deixa triste, mais triste do que ver portugueses falarem e escreverem mal, darem erros do tamanho da Via do Infante, torturarem as palavras, alguns que até são licenciados (e nós conhecemos como é a cagança bem portuguesa de se ufanar ter e mostrar um dr. antes do primeiro nome) pregam cada bacorada gramatical, ortográfica ou de pontuação quando se sentam ao teclado que me faz perguntar em que idioma fizeram os exames do Secundário, do Superior e quem foi o cego que os corrigiu. Eu sei que nem todos nós temos o dom da palavra mas escrever minimamente bem o idioma natal é uma obrigação de todos os portugueses, ver as palavradas que pessoas com uma certa responsabilidade cívica escrevem nas suas redes sociais – por exemplo – é uma dor de alma. Palavra de honra.
